16 janeiro 2026

Sangria

Laranja, limão e maçã. Nunca como em janeiro a nossa wonder bractea fica tão monótona no seu papel de fruteira.

              (e, no entanto, o privilégio de ter fruta fresca)

Uma jarra grande. Dei a jarra grande à colega que foi viver com o namorado. Sejam muito felizes, pombinhos espremidos para pagarem um apartamento em Queluz.

              (e, no entanto, conseguiram sair de casa dos pais antes dos 30 anos)

Vinho branco. O LIDL passou a vender vinho sem álcool. Espero que seja mais bem feitinho que o que comprei outrora, noutros sítios. Prefiro beber chá a qualquer coisa faz de conta.

              (e, no entanto, Portugal é o maior consumidor de vinho per capita do mundo, também com a minha ajuda)

Açúcar. Ouvi dizer que a venda de açúcar em Portugal tem baixado ao mesmo tempo que aumenta a obesidade. Claro, bolinho não faz mal a ninguém, mesmo que agora me sinta anti-feminista ao pegar numa forma, por culpa da Carla. Mas não estou a encontrar a fonte deste boato, por isso não acreditem em mim. Não acreditem na Internet. Esta semana levei mais uma esfrega dessa (não)realidade.

              (e no entanto, neste momento, já me é virtualmente impossível trabalhar sem recorrer de alguma forma à Inteligência Artificial)

Gasosa. Água muito fria injetada de dióxido de carbono. Pessoalmente, acho uma violência. Se é para a água estar fria, que seja para nadar no mar, não para acolher bolhinhas.

              (e, no entanto, a natureza também o faz, por isso quem sou eu para o contestar?)

Gelo. A nossa casa, no Inverno, mesmo com os aquecimentos ligados.

              (e, no entanto, Gaza)

Muito lindo, o otimismo de quem mistura tudo isto para fazer uma bebida que, vamos dizer a verdade, quase sempre desilude. Faz todo o sentido a dada altura da vida mas, ainda há mais tempo do que não bebo cerveja, não bebo sangria. No início deste ano, à beira do possível colapso da nossa democracia, esta otimista prefere estar lúcida para ajudar a reconstruir o futuro a partir dos destroços.

Melhores mixologistas que eu:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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09 janeiro 2026

Naperon

Uma das grandes conquistas do ano passado foi encontrar pratos de sobremesa do serviço que herdámos do meu sogro na Dona Ajuda, uma loja de coisas em segunda mão que, se não conhecem, vale muito a pena. Seis pratos em perfeitas condições. Só quem tem a rotação de louça de um snack-bar, em casa, pode perceber do que falo. Quase tão satisfatório foi encontrar as fronhas de algodão maravilhoso, suave e perfeito, na loja de atoalhados de Caminha. O lençol de banho turco, então, é um prazer demasiado íntimo para o partilhar convosco neste espaço público. Se me dissessem que a mesma pessoa que revirava os olhos com todos os assuntos que dizem respeito a decoração e cuidado do lar, agora se regala com estes confortos, não acreditava. Acontece que eu gostaria muito de um dia encontrar a tal zona de conforto de onde nos estão sempre a mandar sair. Talvez chegue mesmo ao ponto em que, sobre o encosto do sofá, colocarei um naperon de uma forma não irónica. Duvido, mas nunca se sabe.


As outras fadas do lar(go):

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12 dezembro 2025

Dançar

De certeza que há montes de explicações científicas e pseudo-científicas do prazer que a dança dá aos seres humanos. Muito gostaria de ter tempo para procurar o que a antropologia tem a dizer sobre o assunto, por exemplo, mas alguém determinou que dezembro seria um mês perfeito para, ao trabalho habitual de um assalariado, juntar ainda imensas obrigações sociais, pelo que o tempo livre se torna escasso. De certeza também que quase ninguém quer saber das minhas insónias, mas ficam sabendo na mesma que, quando as tenho, tento visualizar-me a dançar. Danço em palcos, em ruas, pelos campos. Sereno e adormeço. Como regressei do Minho, os últimos saraus noturnos têm tido lugar nas veredas verdinhas dessas terras do norte. A propósito de norte, e porque nem só de cantoras cujos bilhetes dos próximos concertos se esgotaram sem que conseguisse comprá-los (😭) se faz o nome Rosalía, fiquem lá com estes versos e vejam se conseguem percorrê-los sem terem vontade de dar uma perninha.


Las campanas

Yo las amo, yo las oigo,

cual oigo el rumor del viento,

el murmurar de la fuente

o el balido de cordero.


Como los pájaros, ellas,

tan pronto asoma en los cielos

el primer rayo del alba,

le saludan con sus ecos.


Y en sus notas, que van prolongándose

por los llanos y los cerros,

hay algo de candoroso,

de apacible y de halagüeño.


Si por siempre enmudecieran,

¡qué tristeza en el aire y el cielo!

¡Qué silencio en la iglesia!

¡Qué extrañeza entre los muertos!

                              In Rosalía de Castro, Cantares Gallegos, 1863


p.s. Descobri que há uma escola de dança Rosalía de Castro em Havana. Se não é para isto que serve a Internet?


Pode ser que as minhas colegas do Largo se juntem à roda mais logo, aqui:

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21 novembro 2025

Bode expiatório

Refastelada no sofá em frente à televisão, estava ontem a ver o Jeremy Clarkson a medir o perímetro dos testículos de alguns carneiros antes de decidir quais ia comprar para a sua quinta. Lembrei-me que hoje tinha de escrever sobre bodes. Para quem tenha curiosidade: ambas as espécies os têm de uma dimensão (25 cm) e eficiência (1 para 40) que impressionam. Mas não pensem que as respetivas ovelhas e cabras lhes ficam atrás em termos de capacidade reprodutora, de trabalho e de destruição. Este fetiche urbanita por animais de pastoreio terá várias explicações possíveis. Hoje vou deixar-vos em paz com as citações bíblicas, descansem. Bastam as características que atrás elenquei para justificar como é fácil despejarmos responsabilidades por alguma coisa que corre mal sobre os nossos semelhantes. Só aquele que podia quase ser eu pode arcar com a culpa e a consequência de um delito cometido por mim. Se esse aquele for chifrudo, cheirar mal e estiver coberto de pelo, é praticamente como se nem tivesse sido eu, mas o maligno que me tentou. Bodes expiatórios, sempre os houve, poucas coisas há mais humanas do que sacudir a água do capote.

Outras cabritas:

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14 novembro 2025

Ainda estou aqui

Ainda estou aqui, sussurrou a dor de cabeça com que me deitei, na manhã seguinte. Ainda estou aqui, a pedra dentro da bota acabada de descalçar, show de equilibrismo no caminho para o trabalho. Ainda estou aqui, os residentes do Bairro do Talude, em tendas, abrigos improvisados imagino que sem recurso ao cartão dos outdoors da campanha do presidente da câmara. Também ele ainda está lá. 

Quase nunca funciona, a técnica de esperar que passe. Fingimo-nos de mortos. Entreabrimos um olho, ah!, continua o inconveniente que nos obriga a tomar uma atitude. O risco no pára-choques, porque a chapa não se cura como a pele. A desilusão com quem traiu, porque perdoamos mas não esquecemos. Nada se perde, tudo se transforma e muito se mantém por mais que o tentemos ignorar. Gosto muito do episódio contado por São Lucas em que uma viúva vai chatear um juíz para a porta de casa dele, à noite. Tanto o azucrina que ele lhe faz a vontade só para não ser importunado. Esta influencer bíblica devia ter mais seguidores mas calculo que, já na altura, as mulheres de meia idade e poucos recursos não captassem a atenção a menos que fizessem uma barulheira desgraçada. Ando a reunir coragem para fazer o mesmo mas detesto incomodar.


Ainda estão aqui também:

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12 novembro 2025

Fúrias

Enquanto me enfurecer com os meus pais, eles permanecem jovens. À mesa, ao telefone, no hall de entrada da casa deles e que nunca foi minha, a hiper-reação às piadas intolerantes, à solicitude excessiva, mantêm o sangue a pulsar nas artérias da nossa relação familiar. Mantem-me dependente, subjugada à sua superior experiência, e a eles como conhecedores do mundo, cuidadores, amparo com que posso contar. Para reconhecer que os meus pais já não são mais capazes que eu em quase tudo, teria de os ver com uma compaixão desarmante de todas as fúrias. Esse é um luxo do qual não estou preparada para abdicar.


Furibundas do Largo:

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Boas Intenções

24 outubro 2025

Máscara

Esta cidade é uma grande vaidosa e nem disfarça. Ao longo do ano, veste-se e despe-se conforme lhe apetece. Usa demasiada maquilhagem, que o Tejo não é nenhum espelho, além de que a vista e a mão lhe escapam com os séculos. Faz ela muito bem. Quando se livra por fim dos veraneantes, recosta-se nas colinas e mascara-se de cortesã. Acorda muito devagar. Está escuro até tarde antes de mudar a hora para o ciclo natural do planeta, que é o do Inverno. O céu é de seda em todos os tons de rosa e os jacarandás, baralhados com o hemisfério, voltam a florir. Os pássaros e as pessoas sonhamos com madrugadas frescas, mas ainda está calor. Lisboa finge que é doce, nesta altura. Lisboa só sabe ser luz que cega, metade do tempo. Na outra metade chove sem clemência, inunda, imunda, desespera. Como lisboetas, somos negacionistas do mau tempo, suportamos molhas como se fossem o pagamento da promessa que fizemos ao deus do clima supostamente temperado. Em outubro, a nossa fidelidade é retribuída com a beleza fugaz de umas quantas madrugadas.


Sem disfarces, no Largo:

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